O Espelho e Eu
Ela era feia.
Não
tinha mais que uns sete anos de idade, e já havia descoberto a
notabilidade inocultável da feiúra em seu rosto, no espelho de
seu quarto. Quando passeava com seus pais, furtava-se a observar
as pessoas transeúnticas pela anonimidade alheia urbana. E
quando o fazia, percebia como as pessoas eram belas, com faces
agradáveis de se ter e de se ver, olhos notáveis, bocas
notáveis, narizes notáveis...Perfeitos notáveis demais para se
ignorar. Como as pessoas eram belas! Como poderiam ser tão
belas? Eram belas de uma forma que ela nunca poderia vir-a-ser.
Seus pais (cuja atenção pela filha era evidente), preocupados
com o fato de que a angústia notável da menina pudesse criar um
trauma que a estufasse de bloqueios, fizeram de tudo para
distraí-la. Deram-lhe inúmeros brinquedos que resignavam sua
atenção aos limites de seu quarto. Assim, ela não sairia de
casa, e portanto não veria ninguém além dos brinquedos. Bem,
algo podre no fundo deles dizia que desejavam que a filha tivesse
nascido um pouco mais...atraente.
E lá estava ela, penteando seus cabelos feios em frente ao
espelho, vendo seus olhos feios, sua boca feia e seu nariz feio.
Ela não parava de pensar em como resolveria esse problema.
E
o espelho?
O
espelho, por sua vez, achava a menina uma pessoa tão reflexiva
que decidira imitar seus gestos, penteando seus cabelos, tão
feios quanto seus olhos, sua boca e seu nariz.
Rodrigo da Silva