Crônica Familiar

Seu João era um idoso que beirava os noventa anos. E muito bem vividos, obrigado. De corpo esguio, porém, saudável, o velho gostava de mencionar que era o único bisavô ainda vivo na família, e já corriam rumores sobre um tataraneto (que seria tardio, comparado à paternidade precoce dos netos). O velho não possuía uma extensa barba grisalha ou qualquer outro detalhe físico explicitando a longa idade. Mas ele enchia-se de venerandice e orgulho ao desdobrar a carteira para alguém, florida com fotos de sua larga descendência. Cheia de fotografias que nunca havia enxergado direito antes.
Esse era o problema. Seu João não podia diferenciar um filho de um bisneto. Não se tratava de cegueira; mas de uma deficiência rara nas córneas que desfocava-lhe a visão, como se um rio corresse na frente dos olhos. Ao velho João, das pessoas só se concedia a silhueta.
Fora um dos netos quem tentara buscar a solução para a doença. O avô precisara trabalhar na roça com os filhos, por isso nenhum deles tivera uma educação decente. Só depois de se mudarem para a capital que as coisas melhoraram. Os filhos trabalhavam como podiam e os netos estudavam bem. Até que começaram a se destacar e a seguir carreiras.
Um deles era médico. Mas não de olhos. Para tanto, consultara um amigo, cuja boa vontade havia organizado tudo; até o dia da cirurgia. Estava tudo certo como sol no verão.
O transplante fora um sucesso. O velho João, agora com córneas de vinte anos de idade, recuperava-se da operação. A família sobejava de contentamento.
De repente, a vida era incerta. Durante o descanso, o idoso sofrera um derrame, complicando todo o quadro. O falecimento era iminente.
E lá estava seu João, de olhos sadios e corpo nas últimas, tendo toda a família à sua volta. Dera uma boa olhada em cada um deles, em cada face, e em cada foto, pela primeira e última vez em todos os noventa anos de sua veneranda vida. Que, por sinal, fora muito bem vivida, obrigado.

Rodrigo da Silva

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