Conte seu jardim pelas Flores
As
crianças correram em desespero alegre quando souberam que ele
havia chegado. Elas o aguardaram impacientes, e seus familiares
já demonstravam um aborrecimento paterno típico, de tanto
responderem a pérolas como: "quando ele vai chegar?" e
"ele já chegou?"; incansavelmente repetidas. Os
pequenos moviam suas pernas tão rapidamente que quase perdiam o
controle delas, mas isso não importava. A casa e o jardim se
aproximavam trêmulos, a rua corria abaixo de seus pés e elas
teriam mais um dia com ele.
--
Não corram ! -- berrou o homem.
Ele
estava de pé em frente ao portão da casa, com um regador na
mão esquerda e uma tesoura na outra. Seus olhos azuis se
destacavam de sua face como as estrelas, que cintilavam impunes
em meio às trevas noturnas. Cabelos e bigode brancos como o
leite brotavam de sua cabeça feito a relva, e sua postura era
firme como uma sequóia. Vestia um macacão surrado e calçava
botas sujas de lama. O senhor que as crianças tanto procuravam
era um jardineiro. Um barbeiro das plantas.
O exército pueril cercou o velho e sitiou sua entrada na
casa, inquirindo de forma ininteligível por dezenas de vezes. O
velho apenas sorriu em resposta, abrindo caminho por entre os
mais ávidos, que disputavam sua atenção agressivamente. Com
uma paciência profunda, o senhor conseguiu abrir o portão e
acessar o quintal da casa. --Nós veremos as abelhas hoje?
--gritaram duas crianças em uníssono.
-- Não falem tão alto -- respondeu o velho, com uma cortesia
solene -- Vocês verão as abelhas se elas quiserem ser vistas.
Agora, deixem-me entrar!
As
crianças cederam espaço para aquele senhor, e assim ele pôde
contemplar seu local de trabalho. Uma pequena vastidão verde,
cuidadosamente bordada com pedras irregulares estendeu-se à sua
frente, revelando sua beleza como se uma cortina teatral houvesse
se recolhido. O Sol lançava sua luz sobre aquele lugar como se
fosse a atração principal de um circo. O capim era o picadeiro
e as flores eram o sorriso dos malabaristas. Petúnias, lírios,
margaridas, crisântemos e rosas adornavam o jardim como as
palavras preenchiam um livro. O senhor respirou fundo e percebeu
que, apesar de cuidar daquele limitado pedaço de paraíso todos
os dias, cada dia que o observara era como se o tivesse visto
pela primeira vez. E, pela primeira vez, todos os dias, o velho
recomeçava a limpeza como se tudo não tivesse apenas um fim
para ser contemplado.
Com
uma vassoura, ele começou sua demanda reunindo todas as folhas
secas espalhadas pela grama, provenientes das árvores erguidas
ao longo da calçada. Depois ele aparou a grama e alguns arbustos
agradavelmente, como se a ceifa dos excessos verdejantes deixasse
sua alma mais leve. Em seguida, varreu novamente a relva,
deixando-a com um aspecto uniforme e limpo. Todo esse trabalho
era feito acompanhado de constantes intervenções das crianças,
que perguntavam o porquê de tudo. As respostas do jardineiro
satisfaziam a curiosidade daqueles pequenos inquiridores, mas a
cada dúvida resolvida surgiam outras três. Eis que, no decorrer
de uma questão, todos se fizeram calar pelo espanto que um grito
de dor causara na mansidão do jardim. Um garoto, de olhos negros
e vastos cabelos lisos, agachado em frente a um batalhão de
rosas, segurava seu dedo indicador direito, corado de sangue. Seu
rosto choroso mostrava a surpresa acuada de um animal
encurralado, encharcado de lágrimas rápidas e minúsculas.
Denotava o apelo de uma vítima do ataque de um ataque de um
exército de soldados selvagens.
Como
um especialista no assunto, o jardineiro levou a criança até
uma torneira e lavou o ferimento. Enquanto a água dispersava o
alarmante líquido escarlate e aliviava a profusão lacrimejante,
o menino soluçava observando o céu. Estava tão azul como se
nunca o estivesse antes. E as nuvens eram tão...
--
Esqueça as nuvens. --disse o velho.
--
Por quê? -- retrucou o garoto.
--
As nuvens criam sombras, e as sombras deixam as coisas menos
fáceis de serem vistas. -- respondeu o velho.
--
Mas eu vejo tudo direitinho! -- insistiu o menino.
-- Então, por que machucou seu dedo ?
O
menino não podia responder. Na verdade, nem sabia se estava
entendendo o que aquele senhor barbudo dizia. Procurava com os
olhos algo que pudesse lhe dar uma idéia para falar: olhava para
o macacão do jardineiro, para seus amigos (que pareciam
estátuas agora), para o chão e, quando decidiu ver o que seu
dedo havia se tornado, o senhor já o havia enfaixado com um
pedaço de pano que trazia no bolso.
-- Pronto -- disse o jardineiro -- Isso vai mantê-lo inteiro
até a próxima vez em que se ferir. E lembre-se: não olhe para
as nuvens e para as sombras.
Aqueles olhos azuis pareciam faiscar enquanto falava. Seu encanto
imobilizava a atenção de todos, e poucos podiam afirmar que
tipo de truque aquele velho utilizava para se destacar entre os
demais. Muitos jardineiros vestiam suas roupas, reuníam suas
ferramentas e realizavam seus trabalhos com a indiferença de um
catador de lixo; mas, aquele jardineiro trabalhava como um
cirurgião. De fato, ele também era um jardineiro de pessoas.
Não demorou muito para que as crianças reclamassem seu direito
absoluto de observar as abelhas. Esse era o verdadeiro motivo de
esperarem o velho naquela casa: os fundos da residência
abrigavam uma colméia que, provavelmente, estava abundnate em
mel. Para as crianças, ver as abelhas significava ter uma boa
oportunidade de ganhar algumas gotas do nutritivo produto
apicultural. Havia inúmeras outras casas, com jardins maiores
cheios de arbustos decorados com cortes esculturais, demonstrando
toda a opulência da jardinagem exacerbada, tentando agradar aos
olhos dos observadores. Porém, as crianças e as abelhas haviam
escolhido aquele jardim. Não se importavam com tamanho ou com
esculturas. Se importavam apenas com as flores.
Quando
todas as crianças experimentaram suas devidas colheradas da
guloseima, o jardineiro apressou-se em botá-las para fora da
casa, anunciando que a festa acabara e que lhe era mister cuidar
de outros jardins. Após uma breve pirraça, os pequenos se
convenceram de que o velho voltaria e que teriam mais um dia com
ele. Assim, o jardineiro saiu daquele quintal e partiu em
direção aos próximos jardins, com tamanhos e flores
diferentes.
Cada criança tentava ocupar sua ansiedade com brincadeiras
enérgicas, correndo, pulando e gritando, como se nunca o
tivessem feito antes, Entretanto, ao anoitecer, cada uma delas
mal podia esperar pelo nascer do Sol, e pela chegada do senhor
que empunhava regador e tesoura, pronto para fazer seu trabalho e
para contar cada jardim pelas flores. Os jovenzinhos
acomodaram-se em suas camas, de olhos bem abertos, imaginando o
dia seguinte. A flor de suas mentes brotava intensamente em
direção ao amanhã.
A alvorada surgiu cinzenta. As nuvens cobriam todo o céu, de
modo que não restava um mínimo espaço para que seu manto
azulado pudesse ser contemplado. O dia estava escuro. A turma se
reuniu logo cedo em frente à casa que costumava ser a primeira a
receber a visita do jardineiro. Os pequenos sabiam que o velho
só iria até aquela casa para recolher alguns instrumentos, mas,
por mais rápida que fosse a aparição dele, sua presença os
agradava. Enfim, depois de várias horas de espera, e de
inúmeras perguntas pelo ar, o dono da casa, um senhor calvo e
barrigudo, abordou-os dizendo que tinha uma má notícia. As
crianças fitaram-no com faces ingênuas aguardando a resposta. O
homem calvo disse que havia acabado de receber um telefonema da
família do jardineiro, informando que o mesmo falecera de
infarto durante a madrugada. Disse também que o velho estava
tomando medicamentos, porém, num acesso de teimosia, recusou os
remédios ontem à noite. O homem perguntou se eles desejavam
entrar e observar o lugar preferido do trabalho dele.
Maquinalmente, os pequenos marcharam em fila para ver o jardim
que nunca mais receberia os cuidados do velho barbudo. A relva
cresceria indiferente ao fato e as flores continuariam perfumando
o quintal, sem perceberem a ausência do senhor de barba branca e
macacão surrado. As abelhas fabricariam seu tesouro doce e as
folhas das árvores da calçada se espalhariam pela grama sem
nenhuma consciência de que o barbeiro das plantas havia morrido.
As crianças cresceriam, suas vidas seguiriam rumos variáveis,
mas o jardim e as flores continuariam lá.
O menino que feriu o dedo nos espinhos de uma rosa observava as
nuvens. Queria seguir o conselho do jardineiro e ver o céu,
iluminar seus olhos e o ambiente à sua volta, mas as nuvens não
o permitiam. Então abaixou sua cabeça e examinou o jardim.
Descobriu dessa forma que o azul do céu não havia desaparecido,
estava apenas escondido nas flores. Finalmente, compreendeu que o
velho vivia contando flores, e havia morrido porque esquecera de
cuidar do jardim de seu coração.
Rodrigo da Silva